Artistas vencedores no Concurso 50 anos de A Bolsa Amarela

Modalidade Adulto

1º lugar: Antes de ser presente (Conto) | Autora: Amanda Dourado Gonzalez | Maringá/PR

Meu pai me encontrou na rua antes que eu me tornasse memória.

Eu estava caída perto da calçada, com a estrutura torta, poeira nas bordas e um fecho que ainda resistia. Para qualquer outra pessoa, eu seria resto. Para ele, fui possibilidade. Recolheu-me com cuidado, levou-me para casa, limpou minhas marcas e entregou-me à filha como quem oferece mais do que um objeto: como quem oferece afeto do jeito que pode. E foi assim que entrei na vida dela.

Não vim de loja, não tive laço, nem brilho de vitrine. Ainda assim, fui recebida como tesouro.

Nos ombros daquela menina, acompanhei cadernos, lápis, segredos e silêncios. Vi seus passos apressados para a escola, seu retorno quieto para casa, e fui entendendo, aos poucos, que não carregava apenas coisas. Carregava vontades.

No começo eram borrachas, papéis dobrados, sonhos pequenos. Depois vieram pesos mais difíceis de nomear. A vida foi enchendo seus dias cedo demais. Ela passou a guardar dentro de mim o que não cabia do lado de fora: a vontade de crescer sem deixar de ser menina, a vontade de falar sem medo, a vontade de existir inteira, sem precisar se esconder.

Eu, amarela e antiga, seguia com ela. Guardei bilhetes, fotografias e restos de coragem.

Aprendi que crescer, às vezes, é ir colocando dentro da bolsa aquilo que não se consegue dizer em voz alta. Talvez por isso ela nunca tenha me jogado fora. Acho que, de algum modo, se reconhecia em mim. Eu também fui encontrada quase sem valor. Eu também precisei continuar, mesmo marcada.

Meu pai − porque passei a chamá-lo assim também − talvez não soubesse que, ao me recolher da rua, ajudava a filha a recolher pedaços de si mesma. Comigo no ombro, ela atravessou a infância, as faltas, as vergonhas e os dias em que precisou ser forte antes da hora. Eu fui ficando gasta, a cor menos viva, as bordas cansadas. Ela também foi acumulando marcas invisíveis. Mas seguimos. Há coisas que permanecem não porque são novas, e sim porque aprenderam a resistir.

Hoje entendo que nunca fui apenas uma bolsa.

Fui o lugar onde ela guardou o que ainda não podia mostrar ao mundo. Fui testemunha da menina que, entre pesos e silêncios, foi se tornando mulher. E, se há algo de bonito nisso tudo, é saber que aquilo que um dia pareceu resto pode, nas mãos certas, virar abrigo.

Fui achada na rua. Nas mãos do pai, virei presente. Nos ombros dela, virei caminho. E talvez crescer seja isso: abrir a bolsa um dia e, em vez de esconder as vontades, finalmente deixá-las nascer.

2º lugar: A pasta amarela (Conto) | Autora: Camila Lemia | Maricá/RJ

Antigamente as vontades eram guardadas em tecidos e papéis. Usávamos bolsas de lona enfeitadas, mochilas de zíperes emperrados que guardavam segredos com cheiro de grafite, ou diários com cadeados de metal que qualquer clipe de papel sabia trapacear. Era um tempo de esconderijos táteis, onde o segredo ocupava um lugar físico. Mas Luma já não pertencia a esse mundo; ela carregava o peso de três universos em um smartphone de tela trincada. Para a família, era o prodígio da geração, veloz, multitarefa e, visualmente, previsível. O que ninguém suspeitava é que, escondida no diretório raiz do seu sistema, existia uma partição criptografada que nenhum olhar adulto ou algoritmo de controle parental conseguia indexar. O ícone era um quadrado amarelo vibrante, uma ferida de cor destoando da estética sóbria do sistema. Ali Luma guardava suas insurgências. Sua primeira revolta não cabia em vídeos curtos ou dancinhas coreografadas. Era a urgência visceral de ser gente grande, mas não à imagem dos adultos de 2026, escravos de métricas, ansiedade e uma produtividade que drenava a cor dos olhos. Luma queria a maturidade do silêncio. Na sua Pasta Amarela, rascunhava planos de fuga para lugares onde o GPS não alcançasse, onde o tempo não fosse fragmentado pelo cronômetro impiedoso das notificações, mas medido pelo movimento das sombras. A segunda vontade pulsava em pixels de rebeldia. No mundo de Luma, ainda tentavam moldá-la em caixas de vidro, delicadas e transparentes. Mas ela se sentia um código com erro de sintaxe, um algoritmo que se recusava a entregar o resultado esperado. No arquivo colecionava fragmentos de identidades que não aceitavam o gênero como um roteiro préescrito. Queria a liberdade de ser o que ainda não tinha nome, sem o peso dos filtros de beleza ou das expectativas de doçura que a família cobrava em cada comentário de foto, como se sua existência fosse apenas uma vitrine para o prazer alheio. A terceira vontade era a que ocupava mais gigabytes, a fome de escrever. Não legendas otimizadas para o engajamento, mas palavras que tivessem textura, que doessem e curassem. Dentro da pasta, um documento infinito registrava um universo onde a imaginação era a única criptomoeda de valor real. Eram páginas de uma literatura crua, onde derramava sua alma sobre a solidão digital e a beleza do imperfeito. Numa tarde de maio, o pai encostou no batente da porta: “Sempre nesse computador, Luma? Vai viver o mundo real, menina!”. Ela sorriu, os dedos pairando sobre o teclado. O que ele não percebia era que o mundo lá fora havia se tornado plano e previsível, enquanto sua Pasta Amarela era um oceano vasto e profundo onde ela era, pela primeira vez, absolutamente livre. O mundo real não estava lá fora; ele estava sendo construído, letra por letra, naquela partição secreta.

3º lugar: Bolsa sideral (Poema) | Autor: Henrique de Almeida Barbosa do Vale | Belo Horizonte/MG

Na bolsa amarela o espaço se infinitava.
Tudo era possível dentro da bolsa amarela:
As coisas perdiam peso,
As medidas desaprendiam régua,
As distâncias largavam caminho,
O tempo esquecia relógio.

Em seus cantos cresciam, como maçãs,
Sapatos e roupas de gente grande.
Os ponteiros disparavam
Como piões sacudidos por chocalhos.

Escondia a ânsia de crescer de repente,
Deixar de ser vidro transparente,
A voz virar clarim

Quando o nariz proclamasse independência.

Cabia também a vontade de abrir ruas,
Largar o vestido de boneca,
Jogar futebol com os amigos,
Pé descalço, sujo e joelho ferido.

E no fundo, entre bugigangas,
Vagalumeava um lápis de ponta acesa,
De onde germinavam palavras
Orvalhadas do seu sentimento.

Raquel queria o futuro antecipado,
O tamanho de ser vista e ouvida,
A vantagem solta dos meninos,
Jangadear sobre palavras
Nas correntezas do sentir.

Modalidade Jovem

1º lugar: Jovens vontades (Crônica) | Autor: Kauan Jordan Pietrzack Marques | Capanema/PR

Outro dia, enquanto arrumava meu quarto, encontrei uma caixa velha cheia decoisas que eu já nem lembrava que existiam. Tinha ingresso de futebol, foto daescola, caderno rabiscado e até bilhete amassado de amigo. No meio daquelabagunça toda, comecei a pensar que adolescente também vira uma espécie de caixa.

A gente vai guardando um monte de coisas por dentro sem contar pra ninguém… principalmente vontades.

Mas antes deixe eu me apresentar, eu me chamo Peter Park e moro em Nova York.Bom… bem que eu tenho vontade ser ele, mas deixa para lá! Eu me chamo Natanael e moro em Mineiros, Goiás. Sou estudante do nono ano e tenho o sonho de ser livre e viajar o mundo. Mas vamos voltar ao assunto.

Não aquelas vontades simples, tipo comer pizza ou faltar à aula de segunda-feira.São vontades que ficam escondidas porque parecem erradas quando saem da nossa cabeça.

A primeira vontade que eu escondo é a de demonstrar sentimento sem medo. Às vezes dá vontade de falar que estou triste, cansado ou preocupado, mas sempre que digo, um adulto fala: “ah, você nem trabalha, porque tá reclamando?”. Então eu só respondo que estou bem, mesmo quando não estou. O problema é que guardar tudo vai cansando. Tem dia em que o silêncio pesa mais do que qualquer discussão, mas, mesmo assim, eu continuo fingindo que está tudo certo, porque parece mais fácil do que explicar o que nem eu consigo entender.

A segunda vontade é a de não precisar agradar todo mundo o tempo inteiro. Parece que a gente vive em teste. A família espera uma coisa, os amigos esperam outra, a escola cobra muito e, no final, sobra pouco espaço pra descobrir quem a gente realmente quer ser. Às vezes eu fico pensando se as pessoas gostam de mim mesmo ou só da versão que eu mostro para agradá-las. Então a gente vai mudando pequenas coisas no jeito de agir, de falar e até de pensar, só para tentar se encaixar e não se sentir sozinho.

E existe uma terceira vontade que talvez seja a mais escondida de todas: a vontade de desacelerar. Todo mundo fala sobre futuro, profissão, responsabilidade e sucesso, como se a vida fosse uma corrida que já tivesse começado. Às vezes eu só queria poder respirar sem achar que estou ficando pra trás, às vezes eu ainda nem sei o caminho e tenho que ir em frente. Só queria viver um pouco sem sentir que cada escolha vai decidir o resto da minha vida. Mas, mesmo quando tento descansar, os pensamentos continuam correndo na frente.

O mais curioso é que quase todo adolescente deve carregar vontades parecidas.Mesmo assim, quase ninguém fala sobre elas. Cada um vai criando sua própria“bolsa amarela” invisível e enchendo ela aos poucos, até ficar pesada demais. Talvez crescer seja justamente perceber que ninguém é tão seguro quanto parece. Mas é uma fase e temos que passar da melhor forma para nós. Enfim, já está tarde e isso é que eu tinha vontade de falar hoje.

Adeus querido diário!

2º lugar: Um galo fora do poleiro (Conto) | Autora: Isadora Rosa de Oliveira Rodrigues | Igaratá/SP

Viver dentro desta bolsa é como equilibrar o mundo em cima de uma crista.Muita gente acha que sou só uma simples carona, mas na verdade sou fiel guardião das vontades de Raquel e aqui dentro desta bolsa o espaço é disputado centímetro a centímetro.

Do meu lado, sinto o peso da vontade de Raquel.São três, mas a vontade de ser gente grande é a que mais incomoda: ela é espaçosa e cheia de “pode” e “não pode” e, vira e mexe, me aperta contra o pano. A vontade de ser menino é bem agitada e vem com um gostinho de liberdade. E a vontade de escrever… “ah, essa é a que eu mais gosto, tem cheiro de descoberta! Mas, além da Raquel, eu também ocupo lugar. Eu também tenho as minhas vontades guardadas debaixo das asas. Eu tenho vontade de ser um galo sábio e não um simples galo de poleiro.Sonho em me autoaprimorar até ser o galo que nenhum livro de biologiaconsegue explicar.

Às vezes nossos sonhos se batem.Então tenho que usar meu sonho de ser filósofo para trazer calma.

No final das contas, a bolsa amarela é o lugar onde os nossos sonhos aprenderam a conviver. Pode estar apertado, pode estar pesado, mas enquanto estivermos juntos,nenhum de nós vai parar na panela da rotina.

3º lugar: O que cabe no amarelo? (Crônica) | Autora: Cléo Ester | Alexandria/RN

Dizem que o tamanho de uma criança não mede, de forma alguma, a magnitude de suas angústias. Ao mergulharmos nas páginas de A Bolsa Amarela, de Lygia Bojunga, conseguimos perceber o quão barulhenta a infância pode realmente ser, mesmo sem falarmos uma palavra. Raquel, a protagonista desta história, é muito mais que um personagem no papel; é o retrato de todos nós que, em algum momento, precisamos de um esconderijo seguro para nossas verdades mais cruas.

O livro nos apresenta uma bolsa que é muito mais que um acessório: ela se tornaum verdadeiro confessionário de pano. É ali, naquele espaço tingido de sol, que Raquel deposita suas três vontades “proibidas” pela lógica apressada dos adultos, que pulavam forte demais para o silêncio da casa: a de ser grande, a de ser menino e a de ser escritora.

Quem nunca quis ser “maior” só para ser levado a sério? Ou sentiu que as regras do mundo eram mais gentis para os outros? A vontade de escrever, de transformar a vida em tinta para que ela doa menos, ou para que, ao menos, faça algum sentido artístico.

Ao decorrer da história, acompanhamos o peso metafórico desse silêncio. A bolsa de Raquel vai ficando estufada, pesada e incômoda − não são pedras que estão lá dentro, mas o peso de esconder quem se é, o que acontece quando guardamos nossos sonhos em vez de vivê-los −. Raquel começa a enfiar de tudo na bolsa: suas cartas para os seus amigos, André e Lorelai, o romance que escreveu, o galo Afonso… Ela tenta carregar o mundo inteiro em um acessório de pano. A bolsa deixa de ser um abrigo para se tornar um cárcere amarelo, uma metáfora certeira para quando tentamos guardar nossos sonhos no bolso por medo de ninguém entender: uma hora o ombro começa a doer e a alça ameaça arrebentar.

O desfecho dessa jornada é a lição que fica sobre o alívio de se esvaziar. Raquelcompreende, enfim, que o tempo se encarrega do crescimento do corpo, e ela percebe também que não precisa esperar para ser alguém: ela já é. Ao decidir que a bolsa não precisa mais ser um cárcere, ela deixa suas vontades respirarem o ar do mundo real. Ela descobre que ser escritora não é um plano distante para o futuro, mas a ferramenta poderosa que ela já empunha para desenhar seu próprio destino. No fim, a bolsa se esvazia não porque ela desistiu de seus sonhos, mas porque ela finalmente teve a audácia de começar a vivê-los fora do esconderijo, permitindo que sua identidade, antes guardada, pudesse finalmente transbordar.